¡Que Viva el Cinema! *

O Doclisboa’18 dedica a sua retrospectiva de autor ao cineasta colombiano Luis Ospina. A sua visão atenta e bem-humorada do seu país, a sua forte paixão pelo cinema e o seu empenho na preservação do passado fazem dele uma das figuras mais importantes da história recente do cinema da América Latina.

Luis Ospina nasce em Cali, na Colômbia. Estuda cinema na UCLA, onde realiza o seu primeiro filme, Acto de fe, uma adaptação livre do conto de Jean-Paul Sartre Eróstrato. De volta a casa, torna-se num membro activo do Grupo de Cali no início dos anos 1970, vivendo a efervescência cultural e política da época. Com um grupo de amigos chegados – incluindo Andrés Caicedo e Carlos Mayolo –, funda o cineclube de Cali e a revista de cinema Ojo al Cine. Começam a rodar filmes. Em 1971, Cali acolhe os Jogos Pan-americanos: em Oiga, vea!, Luis Ospina e Carlos Mayolo filmam a transformação da cidade e as pessoas que não têm dinheiro para entrar nos estádios com um forte ponto de vista político e alguma ironia. O filme mais emblemático desse período é Agarrando pueblo (1978): uma equipa de cinema está a fazer um documentário encomendado por uma televisão alemã e procura nas ruas de Cali pessoas pobres, para mostrar o filme na Europa, ganhar dinheiro e alcançar a fama. Esta sátira cáustica daquilo a que chamam porno miséria é o último filme que Ospina co-realiza com Carlos Mayolo. Simultaneamente, redigem o manifesto sobre a porno miséria como forma de denúncia.

Posteriomente, e ao longo da sua carreira, Luis Ospina dedica vários outros documentários à sua cidade natal, descrevendo todos os aspectos da sua história, mudanças e habitantes: Cali: de película (1973), Arte-sano cuadra a cuadra (1988), Goodbye to Cali (1990), Cámara ardiente (1990-1991), a trilogia dos ofícios (1991) e a série Cali: ayer, hoy y mañana (1995).
Uma das virtudes mais assinaláveis de Luis Ospina é a sua generosidade intelectual. Faz filmes sobre artistas colombianos de modo a preservar a sua memória. Alguns deles encontram-se entre os seus amigos mais chegados: Andrés Caicedo: unos pocos buenos amigos (1986), sobre o prolífico crítico de cinema e escritor que se suicidou com 25 anos; Antonio María Valencia: música en cámara (1987), sobre um dos pianistas e compositores de música clássica mais famosos da Colômbia; Fotofijaciones: retrato hablado de Eduardo Carvajal (1989), sobre o fotógrafo e director de fotografia; Nuestra película (1993), com o pintor Lorenzo Jaramillo pouco antes de morrer de SIDA; ou La desazón suprema: retrato incesante de Fernando Vallejo (2003), sobre o autor de La virgen de los sicarios, entre outros romances – a sua amizade com Luis Ospina resulta no filme homónimo de Barbet Schroeder. Em 1994, a amizade de Luis Ospina com o realizador chileno Raúl Ruiz leva à feitura de uma curta-metragem gótica na tradição do género da telenovela: Capítulo 66.

Ávido cinéfilo, o realizador colombiano faz um filme sobre o primeiro filme mudo do seu país, En busca de “Maria” (1985), um documentário sobre filmes mudos dos EUA, Slapstick: la comedia muda norteamericana (1989), e uma série decisiva sobre a história do cinema colombiano, De la ilusión al desconcierto: cine colombiano 1970 – 1995 (2007).

Luis Ospina é acima de tudo um cineasta livre que gosta de quebrar as regras, experimentar e explorar as fronteiras entre documentário e ficção, e que olha para o mundo com um sentido de humor irreverente. Em 1971, filma o seu tributo a Andy Warhol, Autorretrato (dormido), em super 8mm. Em 1972, El bombardeo de Washington utiliza película de 16mm. Quando surge o vídeo, oferecem-se-lhe novas oportunidades – faz colagens em vídeo, da curta-metragem ensaística Video (B)art(h)es (2003) à longa-metragem Un tigre de papel (2007). É igualmente um montador muito habilidoso.

Sendo cinéfilo e cineasta, as suas duas longas-metragens de ficção, Pura sangre (1982) e Soplo de vida (1999), são a prova resplandecente da sua capacidade incrível de brincar com os géneros – filme de terror, filme noir – ao mesmo tempo que caracteriza a sociedade colombiana corrupta e padecendo de loucura e violência.

Em Todo comenzó por el fin (2015), traça um auto-retrato do Grupo de Cali, também conhecido como Caliwood, que, no meio das festas loucas e do caos histórico dos anos 1970 e 80, logrou produzir um conjunto de obras que constitui uma parte fundamental do património cinematográfico da Colômbia. Esta é a história de uma geração. Na mesma altura, descobre que tem problemas de saúde graves e inclui isso no filme.

Hoje continua a filmar e a ver filmes. É director artístico do Festival Internacional de Cinema de Cali desde 2009.

A primeira retrospectiva integral da obra de Luis Ospina na Europa é complementada com uma carta branca ao realizador composta por cinco sessões que inclui surpresas e descobertas.
Agnès Wildenstein

 

* Viva o cinema! – o título da obra prima de Andrés Caicedo é ¡Que viva la música! [Viva a música!].

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