{"id":4035,"date":"2018-10-10T17:52:41","date_gmt":"2018-10-10T17:52:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.doclisboa.org\/2019\/?p=4035"},"modified":"2018-10-10T17:53:00","modified_gmt":"2018-10-10T17:53:00","slug":"navegar-o-eufrates","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.doclisboa.org\/2019\/navegar-o-eufrates\/","title":{"rendered":"Navegar o Eufrates"},"content":{"rendered":"<p>O Eufrates \u00e9 um sonho, um rio, um mito, um espa\u00e7o que n\u00e3o existe, o Jardim do \u00c9den, o Ararat, a arca (perdida), a Mesopot\u00e2mia, a Babil\u00f3nia, a origem oriental do mundo ocidental.<\/p>\n<p>Com 2700 km de extens\u00e3o, o Eufrates resulta da conflu\u00eancia de dois cursos de \u00e1gua principais. Um, o Kara Su, nasce na Arm\u00e9nia turca, a cerca de 100 km da extremidade sudoeste do Mar Negro. O outro, o Murat Su, nasce sensivelmente a meio caminho entre o lago V\u00e3 e o Monte Ararat. Ap\u00f3s percorrer 1000 km em territ\u00f3rio turco, entra na S\u00edria e, por fim, penetra em territ\u00f3rio iraquiano, percorrendo mais 1000 km. Perto de Bassor\u00e1, conflui com o Tigre, formando o Shatt al-Arab, num vasto delta que desagua no Golfo P\u00e9rsico.<\/p>\n<p>O Eufrates atravessa fronteiras pol\u00edticas e sentimentais da Arm\u00e9nia, Turquia, Curdist\u00e3o, S\u00edria e Iraque, mas tamb\u00e9m foi fronteira \u2013 a fronteira setentrional da regi\u00e3o formada pela Palestina e pela S\u00edria, compreendida entre o Egipto e a Babil\u00f3nia. Durante a \u00e9poca do imp\u00e9rio persa, separava oriente e ocidente, como indica a express\u00e3o \u201cal\u00e9m-rio\u201d, para de seguida assinalar tamb\u00e9m a fronteira oriental do imp\u00e9rio romano.<\/p>\n<p>Como contar a hist\u00f3ria do Eufrates? Como faz\u00ea-lo atrav\u00e9s do cinema? Talvez deixando-se levar pela corrente serena do rio, como as ma\u00e7\u00e3s vermelhas de Nahapet, de Henrik Malyan \u2013 a primeira leitura cinematogr\u00e1fica \u00e9pica da trag\u00e9dia arm\u00e9nia, que adapta o romance de Hrachya Kochar sobre um sobrevivente do genoc\u00eddio, produzida pela Arm\u00e9nia sovi\u00e9tica \u2013, ou pelo barco de Zaman, l\u2019homme des roseaux, que deixa o seu para\u00edso para tratar a mulher doente enquanto em fundo os ecos da guerra atravessam esta produ\u00e7\u00e3o quase clandestina, contr\u00e1ria ao regime de Saddam Hussein prestes a colapsar.<\/p>\n<p>O nosso Eufrates come\u00e7a na Arm\u00e9nia e com o primeiro filme arm\u00e9nio, Namus, realizado por Hamo Beknazaryan, em Junho de 1926. Trata-se de um filme mudo que narra a vida quotidiana de uma pequena cidade de prov\u00edncia no final do s\u00e9culo XIX. O s\u00e9culo XX tem in\u00edcio na Arm\u00e9nia com o genoc\u00eddio do seu povo, legado de um imp\u00e9rio otomano que se est\u00e1 a desfazer sob as investidas das pot\u00eancias coloniais europeias, que tra\u00e7am outras fronteiras, provocando outros conflitos e feridas que marcam toda a Era dos Extremos e que ainda hoje sangram.<\/p>\n<p>E o Eufrates recolhe as ma\u00e7\u00e3s vermelhas como o sangue.<\/p>\n<p>E o cinema conta, testemunha e documenta, mas, procurando viajar pelas \u00e1guas do rio e seguir o tempo e o espa\u00e7o, fala tamb\u00e9m dos fantasmas, dos foras-de-campo, do antes e do depois, quase a tentar fazer coexistir a realidade e o mito da realidade, que se transforma em arma da verdade e da sobreviv\u00eancia, como nos d\u00e1 conta \u00c9clats d\u2019Armenie, quatro curtas-metragens de Jacques K\u00e9badian.<\/p>\n<p>Porque o Eufrates \u00e9 tamb\u00e9m o s\u00edmbolo da di\u00e1spora, do ex\u00edlio: os hebreus iraquianos de Baghdad Twist, de Joe Balass, for\u00e7ados a deixar o Iraque de Saddam Hussein no final dos anos 1960; mas tamb\u00e9m os habitantes do Shatt al-Arab, enviados para a fronteira com o Ir\u00e3o por raz\u00f5es de guerra e depois expulsos pela polui\u00e7\u00e3o do rio (Al-Ahwar e Sawt, de Kassem Hawal); e mesmo os \u201cfilmes exilados\u201d, rodados em cativeiro e montados clandestinamente no ex\u00edlio, como a Palma de Ouro Yol, acusado de dar a ver um outro territ\u00f3rio \u201cimaginado\u201d, o Curdist\u00e3o.<\/p>\n<p>O Eufrates \u00e9 tamb\u00e9m um sonho desvanecido.<\/p>\n<p>O sonho do pan-arabismo, da revolu\u00e7\u00e3o socialista encarnada pelo partido Baath na S\u00edria e no Iraque; o sonho de um cinema de investiga\u00e7\u00e3o, popular e pol\u00edtico, como o cinema de Omar Amiralay, Oussama Mohammad e Mohammad Malas. Um cinema cr\u00edtico e importante que soube sobreviver \u00e0 guerra que ainda assola a S\u00edria atrav\u00e9s de uma gera\u00e7\u00e3o de realizadores e realizadoras (exilados, novamente uma di\u00e1spora longe do rio) capazes de questionar a linguagem e a consci\u00eancia do cinema europeu e ocidental, como o demonstrar\u00e1 a performance Ghouta Expanded 2.0, encenada por Donatella Della Ratta, Ammar al-Beik e Aghyad Abou Koura.<br \/>\n<strong>\u2014 Davide Oberto<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Eufrates \u00e9 um sonho, um rio, um mito, um espa\u00e7o que n\u00e3o existe, o Jardim do \u00c9den, o Ararat, a arca (perdida), a Mesopot\u00e2mia, a Babil\u00f3nia, a origem oriental do mundo ocidental. Com 2700 km de extens\u00e3o, o Eufrates resulta da conflu\u00eancia de dois cursos de \u00e1gua principais. 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