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Verdes Anos

Pelo terceiro ano, o Doclisboa assume a responsabilidade de apresentar filmes provenientes de contextos escolares, provocando assim a última fase de produção de um filme que é a sua exibição pública e, neste caso, contextualizada. A afirmação cada vez mais clara do documentário na pedagogia do cinema e audiovisual resulta, como seria de esperar, num crescente número de filmes “do real” oriundos de cursos superiores ou formações intensivas. É, por isso, de inegável importância a existência de espaços para a apresentação – última etapa da vida do filme – e discussão desses trabalhos de forma a aproximar os futuros documentaristas do seu público futuro. O Doclisboa, como ponto de encontro anual de realizadores, produtores, críticos, programadores e espectadores do documentário em Portugal, é também, com a secção Verdes Anos, o lugar onde os estudantes de cinema podem cruzar experiências. Há gestos diversos, com referências díspares. Alguns são filmes que arriscam como só no contexto escolar se faz. Sente-se o início da construção de linguagens pessoais, a apalpar os limites da irregularidade. Há filmes que trabalham a relação do som com o silêncio, ou os silêncios, do não humano e do não urbano, como Uivo [Howl] ou Bétail. Sentimos a forte presença de retratos, observacionais, a partir de depoimentos ou com a participação das personagens, de indivíduos, como Kung Paano Lumutang [How to Stay Afloat] ou Pedro ou São, ou de espaços/personagens colectivos, como The Room. Salientamos também o facto de que, este ano, a selecção de trabalhos produzidos no âmbito dos tradicionais locais de ensino de cinema e audiovisual nacionais é enriquecida com um conjunto valioso de filmes do projecto Docnomads, que proporcionam um retrato de Portugal contemporâneo pelo olhar de estudantes de cinema provenientes de várias partes do mundo. Por vezes aproximando-se das comunidades estrangeiras que aqui se estabeleceram – como, por exemplo, em Tut Razom [Here Together] ou Opekkha [The Wait] –, outras vezes na procura de uma relação de proximidade com as comunidades locais, como no surpreendente A Passagem [The Passage], filme que consegue o dificílimo gesto de colocar-se “simplesmente à altura” das pessoas que filma.

Adriano Smaldone, Tiago Afonso